As vidas que passam, as vidas que ficam

Publicado em 20/11/2018 às 08h03

31 de julho de 2016. O dia tinha tudo para ser mais um normal de trabalho para Anderson Schlosser, técnico em enfermagem no Samu de Venâncio Aires. Ao término de seu plantão, às 19h, eles seguiu pela RSC-287 rumo a Santa Cruz do Sul, onde mora. Naquele dia, porém, algo de diferente chamou sua atenção no trevo de acesso à Capital Nacional do Chimarrão. À frente, um caminhão parava, ligava o pisca-alerta e contava, a Anderson, uma história até então já conhecida por ele: havia ocorrido mais um acidente. Os envolvidos eram Thalía Schulz, Eduarda Jacobi, Luís Cordenunzi, Vitor de Freitas (ocupantes de um Audi, com placa de Venâncio Aires), Jéssica Gotardi e Maurício Souza (de Up, de Porto Alegre).

Ao chegar perto do carro ocupado pelos quatro amigos, Anderson logo percebeu que dois deles estavam em óbito. 'Não precisava nem tocar neles pra saber que não tinha pulso, porque eles estavam bastante machucados. Tinham "traumas incompatíveis com a vida'', relata. Ao se dirigir ao outro carro envolvido na tragédia, ele relembra que Jéssica e Maurício também apresentavam machucados. Contudo, a ajuda chegou rápido, o que contribuiu no resgate das vítimas.

Experiência é indispensável na hora de realizar o resgate. E experiência, de acordo com Ivair Ferreira Rodrigues, o Sargento Ferreira, não se adquire sozinho. 'É um time', frisa o profissional, que atua há 33 anos no Corpo de Bombeiros de Venâncio Aires. 'Depois que se está há anos na área, acaba que nessas situações meio que se bloqueia [o emocional]. Todo mundo tem o direito de se desesperar, a gente não tem esse direito. É a gente que chega com a esperança de ajuda', acrescenta o técnico em enfermagem.

Acadêmica, Thalía Schulz, hoje com 21 anos, ainda vê as consequências do acidente que sofreu em 2016. 'Tenho duas marcas enormes nas pernas. No verão, é difícil alguém não questionar o que aconteceu', comenta ela. Na mente - e no coração -, a jovem mantém aquela tarde de 31 de julho sempre presente. 'O acidente foi um capítulo muito importante da minha vida e reflete muito ainda hoje', diz. 'Acho que cresci muito, mas alguns medos ficaram'.

A mudança na vida da estudante Eduarda Jacobi, de 23 anos, também foi grande. 'No início, eu não tive muitas esperanças. Foram muitas mudanças bruscas em tão pouco tempo. Todo o processo foi lento e muito doloroso, mas aprendi muito com tudo isso', reflete a jovem.

 

UMA VIDA INTERROMPIDA
Nem todos que passam pela RSC-287, no entanto, têm a mesma sorte. No dia 4 de junho de 2018, uma segunda-feira, Márcio Rabuske, então com 20 anos, teve sua vida interrompida na rodovia. Chovia bastante naquele dia. Por volta das 18h, já era noite. Márcio voltava do trabalho quando, nas proximidades do Restaurante Casa Cheia, um furgão que saía da estrada de Linha Bem Feita cortou a frente da moto que Márcio dirigia. Para desviar e evitar a batida, o jovem contornou o veículo pela esquerda, mas se deparou, assim, com um caminhão que seguia no sentido oposto.

 

A NOTÍCIA
A irmã Natália Rabuske foi a primeira a saber. Ela seguia pela RSC-287, também de moto, para deixar o veículo em Venâncio Aires, pegar a van e ir à universidade. Como a família reside em Linha Tangerinas, a jovem precisava fazer esse mesmo caminho todos os dias. Naquela segunda-feira teve uma sensação estranha no peito e, uma hora antes do acidente, o sentimento se agravou. 'Eu não estava bem, não queria ir de moto naquele dia', diz. Mas foi. E, quando chegou próxima ao local do acidente, se deparou com a cena.

Sempre preocupada com a família, Natália relembra que, quando saiu de casa para ir à aula, comentou com a mãe, Simone, que o irmão não tinha chegado do trabalho ainda. 'Quando o caminhão começou a andar, percebi que tinha acontecido um acidente. Logo lembrei do Márcio, que não tinha chegado em casa', relata. 'Quando vi de longe aquele cara deitado, com aquele capacete verde, vi na hora que era ele. Ele estava de capa [de chuva], com a meia em um pé só. Era o corpo do meu irmão', conta, com voz embargada e mãos tremendo.

Quando viu que era seu irmão, Natália ligou para o pai, Clécio, e para o namorado. Com medo de piorar a situação, ela não tentou mexer no irmão, no asfalto. 'Apesar de no fundo saber que ele estava morto, eu não queria acreditar nisso. Então, achei que talvez, se eu não mexesse nele, ele fosse ficar bem', descreve.

Além de avisar ao pai e ao namorado, Natália ligou para a mãe. Inconformada, Simone não quis acreditar na morte do filho. 'Naquele dia, de meio-dia, eles [os irmãos] ainda estavam falando sobre andar rápido de moto', lembra. Na discussão, os irmãos também falaram sobre excesso de velocidade e imprudência no trânsito. 'Naquele mesmo dia, a gente estava falando disso. De tardezinha, aconteceu com o Márcio', lamenta Marcelo, o irmão gêmeo de Márcio.

 

A REVOLTA E A SAUDADE
A família segue incansavelmente em busca de justiça. Além da polícia, uma testemunha ocular, que esperava para atravessar a rodovia, ajuda nas investigações. O motorista do furgão fugiu do local e não foi encontrado. 'Eu não sei como o Márcio vinha também, mas, pela versão da testemunha, nada teria acontecido se o cara [do furgão] não tivesse entrado na frente dele. Ao meu ver, ele [Márcio] não tinha saída ali', ressalta Clécio.

A família alega que há suspeitos envolvidos nas investigações, mas, até o momento, não sabe quem é o motorista do furgão. 'Revolta existe, mas pode acontecer com qualquer um', reflete o pai. 'Claro que ninguém tem a intenção de matar, qualquer um pode errar. Mas, fugiu, como que a pessoa consegue ficar tranquila? Dormir? Se ele era do bem, como que faz isso?', questiona Simone.

Com carinho, a mãe conta que, um dia antes do acidente, Márcio comprou um cavalo e quis fotografá-lo, para guardar de recordação, com a irmã mais nova, Júlia, de 5 anos. 'Ela [Júlia] perguntou pra mim, depois: "será que o pai vai mostrar a foto pro Márcio olhar?". Agora ela diz que ele está no céu, que ele cuida de nós', comenta Simone. 'Dizem que eu tenho que me conformar, que era a hora dele. Não acredito em hora. Quando tem uma doença, ou quando a pessoa está velha, aí pode ser que é a hora. Mas, assim?', indaga, emocionada.

Natália, a primeira a saber, também é a que mais encontra dificuldades na hora de entender o que aconteceu com o irmão. 'Eu não consigo imaginar que meu irmão está dentro de um caixão, lá, gelado. Eu sei que ele não está mais aqui, que morreu, mas não consigo entender. São 20 anos de uma rotina que não tem mais', lamenta a irmã. Márcio morreu na 287, mas a lembrança de quem ele foi permanece para sempre com a família.'Eu lembro dele toda hora, todo dia. Eu olho as coisas, abro o roupeiro, tem a roupa dele. Tem o cheiro, o perfume em tudo ainda', diz a mãe. O pai tem apenas uma certeza: que Márcio não foi o primeiro e não será o último a perder a vida no trânsito.

'Eu não consigo imaginar que meu irmão está dentro de um caixão, lá, gelado. Eu sei que ele não está mais aqui, que morreu, mas não consigo entender. São 20 anos de uma rotina que não tem mais.'
NATÁLIA RABUSKE - Irmã de Márcio

Duplica 287 pressiona; Estado diz que não tem dinheiro
A 287 mata - e não mata pouco. Só este ano, no trecho Venâncio Aires/Santa Cruz do Sul, foram 14 mortes. O trânsito, hoje, conforme o Sargento Ferreira, é mais fatal que a guerra. 'Muita gente morre. Tem muita gente que não sabe nem do que morreu. Um carro, uma arma, eles te matam? Não! Quem vai te matar é quem estiver conduzindo, é a pessoa responsável pelos atos', observa. Um dos fatores que contribui para o número elevado de tragédias é a precariedade da rodovia. 'Enquanto a via estiver nas atuais condições, será difícil preservar a vida de quem circula nela', pontua Thalía. 'São pessoas que vão ao trabalho, aos estudos, de encontro com suas famílias ou a lugares novos, e nunca mais retornam às suas casas', afirma a jovem.

Para evitar que outras vidas se percam, o clamor é pela duplicação dos mais de 200 quilômetros da rodovia, entre Tabaí e Santa Maria. Hoje, somente dois mil metros contam com duas faixas a mais - no município de Santa Cruz do Sul. A fim de garantir as obras de melhoria foi criado o Duplica 287, movimento que reúne entidades regionais. Este ano, integrantes do grupo se reuniram com aspirantes à Assembleia Legislativa e à Câmara Federal. Eles cobraram um posicionamento dos candidatos frente à demanda.

Segundo a Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR), órgão que administra a 287, o Estado não possui recurso financeiro para atender ao pedido. As tarifas de pedágio atuais não são capazes de compor a duplicação da estrada. De acordo com o diretor-presidente da EGR, Nelson Lídio Nunes, o aumento de capacidade do trecho entre Venâncio Aires e Santa Cruz já está com o projeto executivo pronto. Atualmente, porém, mesmo que esteja na etapa de estudo de custos e elaboração do termo de referência para contratação da obra, Nelson diz que 'não há como estimar um prazo para o término e conclusão da duplicação'.


MORTES NA RODOVIA RSC-287 NESTE ANO
17/03/18 - Liane Teresinha Hammes, 44 anos - Linha Mangueirão (km 63)
02/05/18 - Valmor Muller, 45 anos- Santa Cruz do Sul (km 91)
18/05/18 - Maurício Argel de Lima, 23 anos - Santa Cruz do Sul (km 93)
04/06/18 - Márcio Rabuske, 20 anos- Venâncio Aires (km 81).
22/06/18 - Ivan Batista Reiter, 45 anos- Venâncio Aires (km 80)
10/07/18 - Renato Antônio Felten, 61 anos- Santa Cruz do Sul (km 99)
17/07/18 - Arlindo Moreira, 64 anos- Estância Nova (km 70)
20/07/18 - Joice Caroline Stumm, 19 anos- Venâncio Aires (km 80)
20/07/18 - Pedro José Schimidt, 50 anos- Venâncio Aires (km 80)
20/07/18 - Diego Fernando Saldanha Marques, 29 anos - Linha Mangueirão (km 63)
05/08/18 - Aldoir Marques do Amaral, 42 anos- Linha Mangueirão (km 63)
15/08/18 - João Henrique de Oliveira Nunes, 15 anos - Linha Mangueirão (km 64)
28/09/18 - José de Brito, 52 anos - Linha Mangueirão (km 63) (falecimento em 01/10/18)
07/11/18 - Ubirajara Borre Soares, 35 anos - Linha Ponte Queimada (km 74)

 

RSC-287
- 17 veículos por minuto
- 408 acidentes (ago/2017-ago/2018) 
- 24 mil veículos por dia

 

Fonte: Folha do Mate
Créditos: Marília Schuh

voltar para Notícias - Geral

left show fwB tsN|left tsN fwB|left show tsN fwR|c05||skype_c2c_logo_img|news login uppercase c05 b01 bsd|fsN uppercase c05 fwB sbss|fwR c05 uppercase b01 bsd|login news uppercase b01 bsd fsN tsN fwB c15|tsN fwR uppercase c05|fwR c05 uppercase|content-inner c05||