Educação para surdos ainda é desafio em Venâncio

Publicado em 11/11/2017 às 18h01

Suzana: 'A surdez é uma diferença e não uma deficiência'O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) no domingo, 5, surpreendeu muitas pessoas ao debater os desafios para a formação educacional de surdos no Brasil. O assunto merece destaque, até porque, apesar de alguns avanços, os surdos ainda enfrentam muitas barreiras, especialmente no acesso à educação.

Em Venâncio Aires, por não haver instituições de ensino que focam nessa especialidade, todas as pessoas que apresentam surdez são encaminhadas para a Escola Estadual de Ensino Médio Nossa Senhora do Rosário, de Santa Cruz do Sul, considerada referência regional em educação de surdos e que recebe estudantes - além de Venâncio Aires e Santa Cruz - de Passo do Sobrado, Rio Pardo, Vale do Sol, Vera Cruz e Sobradinho. Ao todo, a instituição atende 405 alunos. Desse número, 47 são surdos e nove são de Venâncio Aires.

Mariana de Azeredo Marques, 17 anos, é uma das estudantes da Capital Nacional do Chimarrão que se desloca todos os dias até Santa Cruz do Sul para estudar. De acordo com a mãe dela, Joana de Azeredo, 37 anos, a jovem tem o grau de surdez considerado profundo e começou a frequentar a escola aos cinco anos.

Joana percebeu que a filha não escutava quando não respondia a alguns barulhos: 'Caía uma coisa e ela não se assustava'. A explicação do médico é de que a surdez talvez tenha sido proveniente da prematuridade do nascimento. 'Mas ela pode ter várias outras causas'.
Logo quando Mariana ingressou à escola, Joana começou a fazer curso da Língua Brasileira de Sinais (Libras), por meio da qual as duas se comunicam hoje. Além de necessária para manter um diálogo com a filha, Joana acredita que a língua é muito interessante e merece ser estudada.

Suzana: 'A surdez é uma diferença e não uma deficiência'DESAFIOS
Embora as duas consigam se comunicar perfeitamente, Joana não nega que os desafios que a filha enfrenta são muitos. Até o nono ano do ensino fundamental, Mariana estava inserida em uma sala de aula em que era colega apenas de surdos. Hoje, no primeiro ano do ensino médio, tem colegas surdos e ouvintes e além de uma professora que fala, há uma intérprete, a qual interpreta todas as matérias. Isso, é um dos fatores que tem dificultado os estudos da jovem, pois além de prestar atenção na professora que fala, também precisa se concentrar no que a intérprete repassa. 'Também não é fácil a professora ter conhecimento sobre todas as matérias', complementa. Joana comenta que a informação dificilmente vem completa, porque quando Mariana tem uma dúvida, precisa perguntar para a intérprete que questiona a professora e então a explicação chega até ela. 'O surdo sempre está em desvantagem em relação aos ouvintes, porque todo o material em português não tem em Libras', observa.

Para Joana, o que se torna um incômodo é o fato de que há 12 anos a filha precisa ir todos os dias até Santa Cruz do Sul para estudar: 'Seria muito importante se tivesse uma escola em Venâncio que atendesse surdos'. O preconceito ainda existente nos dias de hoje também entristece a mãe: 'Às vezes, eu e a Mariana estamos conversando em Libras e as pessoas nos olham e começam a rir. Nós não podemos mudar o modo como as pessoas nos enxergam. Eu explico pra ela que nós vivemos em um mundo de preconceitos'.

A comunicação com as demais pessoas também é dificultada em função da surdez. Quem não conhece Libras, Joana conta que escreve ou faz mímicas para manter um diálogo. Segundo a mãe, é gratificante saber que, mesmo em meio às dificuldades que Mariana passa todos os dias, ela é esforçada e não desiste dos sonhos. 'Ela inclusive vai prestar vestibular para Arquitetura e Urbanismo. A Mari é muito inteligente', complementa.

Profissão fantástica
Suzana Fardin trabalha há dez anos como professora de surdos e há sete como intérprete de Libras. Formada em História e Mestre em Letras pela Universidade Santa Cruz do Sul (Unisc), é uma das profes que leciona na escola Rosário. 'O contato com os surdos foi o evento mais fantástico que aconteceu na minha vida profissional. Penso que foram eles que me escolheram. Hoje, sou mais que professora, sou militante e luto junto com eles pelo direito à educação de surdos, agora evidenciada em todo Brasil', comenta.

Para Suzana, o maior desafio ainda está nas pessoas aceitarem essa diferença, mas torna-se também desafiador as famílias terem o apoio de que precisam, como, por exemplo, para o encaminhamento às escolas de surdos onde o contato com outros, desde a primeira infância, é de fundamental importância no desenvolvimento cognitivo, afetivo e social.

A professora ressalta que o convívio entre surdos e a participação da família e escola apenas trazem benefícios. Na opinião dela, um dos motivos pelos quais poucos educadores focam no ensino para surdos é a barreira linguística, pois a língua portuguesa e Libras possuem estruturas diferentes. 'Costumo dizer, para quem me pergunta, que aprender os sinais não é difícil. Difícil é quando eles se juntam. Na situação de sala de aula isso é bem mais complicado, pois nós, professores ouvintes, somos perpassados pela nossa cultura', destaca.

MUNICÍPIO
De acordo com a assessora pedagógica da Secretaria de Educação de Venâncio Aires, Juliane Niedermayer, no momento o Município não pensa em atender os estudantes surdos, pelo fato da demanda ser pequena, bem como, porque todos já recebem um bom atendimento na escola Rosário. 'Temos que primar por um atendimento de qualidade e lá eles estão recebendo esse suporte', comenta.

  •  Necessidade de haver uma escola para surdos

Segundo a professora de surdos e intérprete de Libras Suzana Fardin, a primeira escola referência em educação de surdos de Santa Cruz do Sul foi a Escola Estadual de Ensino Fundamental Gaspar Bartholomay, onde tudo começou há mais de 30 anos. 

A transferência para a escola Rosário ocorreu em 2010. 'A comunidade surda lutava por uma escola de surdos, um espaço próprio para desenvolver suas atividades. Queria um escola de ensino médio, pois os alunos, quando se formavam no ensino fundamental, tinham que ir para outra escola', esclarece.

Suzana ressalta que a instituição de ensino atendia quase todos os requisitos estabelecidos, como o fato de ser acessível e ter fácil mobilidade, o que contribuiu para ocorrer a transferência.

Pelo histórico que há na escola, quase todos os alunos nasceram surdos, mas nem todos com os mesmos graus de perdas auditivas, que podem ser classificados como leve, moderada, severa e profunda'.

Os surdos, de acordo com a profissional, querem ser chamados sempre desta forma. 'A surdez é uma diferença e não uma deficiência. Eles ficam profundamente chateados quando são denominados de deficientes auditivos', observa.

  • Como funcionam as aulas?

A professora de surdos e intérprete de libras explica que os alunos têm aulas regulares e a mesma carga horária dos nãos surdos, com 200 dias letivos, 800 horas para o ensino fundamental séries iniciais e finais e mil horas para os estudantes do ensino médio: 'Não existe nenhuma diferença, a legislação é a mesma'.

Do primeiro ao nono ano, os surdos estudam nas chamadas salas de surdos ou 'classes especiais' e os conteúdos são os mesmos dos não surdos. A língua escrita é a língua portuguesa, mas as aulas são em Libras. Os professores, segundo Suzana, são bilíngues e todos atendem a exigência de formação a nível superior para os alunos do ensino fundamental séries iniciais e para as séries finais, com formação específica em cada componente curricular.

Além disso, todos os docentes têm capacitação mínima de 360 horas na área da educação de surdos e a fluência na língua de sinais, assim como, conhecimento da cultura e identidade surda. 'Utilizamos muito os recursos visuais', complementa.

SURDEZ
De acordo com informações do site Governo do Brasil, a surdez pode ser tanto adquirida quanto hereditária. Infecções contraídas durante a gestação, além de remédios e drogas podem provocar más formações no sistema auditivo do bebê. Além disso, infecções e traumatismos cranianos também podem levar crianças à desenvolverem a surdez. Na idade adulta, acidentes de trânsito e de trabalho podem desencadear o quadro.

EM NÚMEROS
Segundo o Censo de 2010 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 9,7 milhões de pessoas têm deficiência auditiva. Desses, 2.147.366 milhões apresentam deficiência auditiva severa, situação em que há uma perda entre 70 e 90 decibéis (dB). Cerca de um milhão são jovens até 19 anos.

 

Fonte: Jornal Folha do Mate
Créditos: Kethlin Meurer 
Foto: Alvaro Pegoraro / Folha do Mate
Foto: Arquivo Pessoa

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